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A tristeza do alívio

Eu sempre tive uma vida muito confortável no Brasil, graças a Deus meus pais nunca me deixaram faltar nada. Estudei nos melhores colégios que me capacitaram para entrar numa universidade pública, tive carro, mesada e viagens sem fim. Eu simplesmente não tinha nada a reclamar a não ser uma coisa: nada daquilo era meu. Meu, no sentido de: eu que conquistei. 

Eu tive uma educação financeira dos meus pais, que mesmo me dando tudo que eu precisei, sempre me mostraram o quanto não era fácil conquistar tudo que me deram. Porque, crianças, a gente não sabe absolutamente de nada até ganhar seu primeiro salário, não tem mesada que se compare ao primeiro salário.

Mas e daí? Daí que para ganhar meu primeiro salário eu me debandei para o Rio de Janeiro porque infelizmente ter criatividade na cidade onde eu morava não pagava o equivalente ao que meus pais um dia me deram e eu achava que no Rio seria diferente. Marinheira de primeira viagem, esqueci que exisita uma coisa chamada custo de vida, que meu salário deveria ser compatível com o que eu gastaria para ter o básico na vida: vida. Infelizmente depois de 2 anos e meio, todo fim de mês eu ainda precisava daquela velha mesada do meu pai. Mesmo baixando minha qualidade de vida, andando de ônibus, dividindo apartamento com pessoas estranhas (e perigosas) e comendo marmita eu não achava que tinha conseguido o que eu queria pra mim. Mas a cidade me oferecia outro tipo de qualidade de vida, o pôr do sol no arpoador, o andar de bicicleta na lagoa, as noitadas na Lapa… de alguma forma tudo aquilo ainda valia  a pena.

Até que eu cresci. Eu vi que não poderia viver para sempre daquela forma, que eu tinha passado dos 25 anos e que em breve eu começaria a pensar em constituir uma família ou em investir em algo meu. Eu precisava parar de comprar vestidos da Farm parcelados em 12x. O peso da cidade muito cara e salário muito baixo gritava no meu ouvido a cada greve de ônibus, a cada sapato que ia embora com a enchete, a cada assalto no centro da cidade que a gente via no jornal, tudo me alertava para um problema que estava apenas começando. O Rio de Janeiro ainda estava lindo quando decidi abandona-lo. De toda a educação financeira que um dia eu pude ter, nada se compara a experiência da prática. Pesquisei e fiz as contas, morar na França seria mais barato que morar no Rio de Janeiro, foi muito triste ter que dizer adeus, de verdade.

Eu sempre fui muito ligada as minhas origens, nunca abandonei meu oxe e agreguei o cara no começo de todas as orações cariocas, sinto falta do feijão verde e do cuscuz como quem sente falta da cervejinha do final de semana. Nunca quis ser outra coisa que brasileira, acho meu passaporte lindo e não tenho menor interesse em dupla cidadania. Lembrar do clima, das pessoas e do humor típico do brasileiro me faz sorrir e amar ainda mais esse lugar. “Amor bem bandido, admito. Igual paixão por cafajeste – você toma na cabeça quase o tempo todo mas gosta.”  Escutar os gringos encantados quando falo que sou brasileira é como ter nascido com um dom, reconhecido mundo a fora, de ser parte de um país paradisíaco. A gente sente como se algo ao nosso redor brilhasse quando a gente diz: I’m brazilian. E aí como uma mãe a gente sente vergonha e tristeza de ver que seu filho, cheio de potencial, entregue. À violência, as drogas, a corrupção, ao jeitinho brasileiro… que deveria ser difundindo por nossa maneira de saber resolver qualquer problema com criatividade e bom humor e não como malandro safado que pensa que é mais inteligente que todo mundo.

Dói saber que o garoto que morreu esperando o ônibus em frente ao UFRJ poderia ser eu que sempre peguei o 434 pra ir pra casa, eu que sempre andei de bicicleta na lagoa poderia ter sido esfaqueada em um desses passeios. Poderia ser eu a assaltada em praça pública fazendo meu trabalho muitas vezes não valorizado ou ser atropelada por um irresponsável que ainda não entendeu que beber e dirigir é crime. Dói saber que eu tive que sair pra poder escapar de ser eu uma vítima e dá um alívio enorme de não ter que pagar R$200 de conta de luz ou racionar água em banhos de 5 minutos.

De todas as pessoas que encontrei nesse pedaço de férias o assunto é o mesmo: também estou pensando em ir embora. Amigos, ter me expatriado não me faz menos brasileira e por isso esse texto existe porque eu não desisti do Brasil, ele que desistiu de mim. Essa, sem dúvidas, é a minha maior decepção e entendo que é a de vocês também. “Morar no Brasil é uma merda mas é bom, morar fora é bom mais é uma merda” já dizia  o brasileiríssimo Tom Jobim que morreu em 1994… em 1994. 

Hoje um amigo compartilhou no facebook que mais de 300 vistos de Investidor, nos EUA, foram concedidos aos Brasileiros em 2014. Faço as palavras dele as minhas: “Ora, para se obter esse visto americano uma pessoa precisa investir nos Estados Unidos a partir de U$ 500mil (cerca de R$ 1milhão e 500mil Reais) e gerar pelo menos 10 empregos diretos. Ai me veio a tristeza de perceber que nós estamos perdendo empreendedores que desistiram de gerar empregos no Brasil para levarem o capital e sua inteligência para outra nação, pois não acreditam mais em nossa sociedade. Não estamos falando de adolescentes que estão indo passar uma temporada no exterior, ou de pessoas que por força das circunstâncias estão indo morar nos Estados Unidos para trabalharem em subempregos, mas se trata de brasileiros com capacidade financeira e intelectual de gerar benefício financeiro e labora”

“Mas e aí? Terminasse o mestrado? volta pro Brasil?” Não… não agora, quem sabe um dia, quem sabe. É minha terra, minha língua, minha gente, eu amo isso aqui. Eu volto, mas só quando ele realmente me quiser por perto, valorizar meu trabalho, me proporcionar segurança e liberdade. É mais uma questão de amor próprio do que amor ao próximo sabe? Afinal ainda sou brasileira…

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9 Comments

  • Priscila Leme 27 de maio de 2015 at 14:50

    Caramba, que confissão emocionante. Parabéns, lindas palavras. Chorei! Nem te conheço (pessoalmente), mas senti sua emoção e o nó na garganta em cada final de frase. Compartilho desse sentimento. Fique em paz e seja brasileira onde estiver!

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    • Rebecca Cirino 27 de maio de 2015 at 15:29

      Obrigada Priscila! Lendo para fazer as correções, eu me peguei chorando também. Nem eu sei o quanto eu tinha guardado aqui dentro 🙁

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  • ANDRÉA CIRINO BARBOSA 28 de maio de 2015 at 03:01

    Perfeito esse texto Prima! Entendo perfeitamente você e queria também ter essa coragem. Seja Feliz aí e volte sempre para passear aqui. Beijos querida.

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  • Elizabeth Vieira 28 de maio de 2015 at 12:22

    O mesmo aconteceu comigo. Sai do Brasil 15 anos atrás. Nunca consegui nada no Brasil. Aqui nos Estados Unidos eu realizei meus sonhos. O meu Brasil nunca me amou. Apesar de ter dupla cidadania eu ainda falo meu oxente porque foi no Nordeste que aprendi a ser guerreira. Siga em frente e seja feliz.

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    • Rebecca Cirino 28 de maio de 2015 at 14:15

      Oi Elizabeth! Obrigada pelo seu comentario… Meu coração fica pequeno quando penso que posso nunca mais voltar mas se for isso que o futuro me preparou, vamos em frente!

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  • Rebecca Cirino 29 de maio de 2015 at 14:45

    🙁

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  • Hello Brasil | 24 de junho de 2015 at 22:39

    […] que editar esse video maravilhoso que retrata como eu sou feliz quando piso em solo brasileiro e o que eu disse no post passado é verdade, eu AMO isso aqui mas que pena que tudo anda tão “zoadinho”. Porém meus […]

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  • Juan Salomão 1 de julho de 2015 at 17:33

    Eu vivo dizendo sobre este amor cafajeste. A gente toma um tapa, ganha um beijo, e acaba achando normal.Mas, não é.
    Também não quero voltar.
    Também fico muito triste de ver todos os meus amigos falando “to pensando em ir embora”.
    E ainda mais triste de ver, que muita gente com talento e capacidade, está desistindo.
    Adorei o texto!
    Bjs!

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  • arrumeiasmalaseparti 14 de outubro de 2015 at 22:18

    História da minha vida!

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